Entrevista: Dra. Lea Fagundes
comentado por Fabio Tagnin em maio 20, 2008
Por Vinicius Fiori
Um trabalho integralmente dedicado à educação, referência nacional e internacional pela defesa da tecnologia na aprendizagem e um currículo de luta na defesa da melhoria da qualidade na educação. Com a propriedade intelectual de Top Educadora e com a alegria de quem vê um esforço de sessenta anos sendo recompensado, a Dra. Léa Fagundes, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, prestigiou o Primeiro Encontro para Trocas de Experiências Educacionais e Tecnológicas – Plataforma Classmate PC da Intel, e conversou conosco sobre sua experiência e suas expectativas em relação à computação 1:1.
Vinicius: Qual a sua observação sobre os frutos colhidos da tecnologia na educação, que presenciamos nas apresentações e debates deste Encontro, como resultado do que a Sra. acompanhou e batalhou por tantos anos?
Dra. Léa Fagundes: Eu conheci a Intel durante a visita de uma professora do Centro de Pesquisa em Educação que a empresa possuía nos Estados Unidos, há cerca de 4 anos. Ela me mostrou as pesquisas em educação e eu fiquei tão entusiasmada que perguntei qual o interesse da Intel em pesquisas, já que fabricava computadores. A Professora respondeu que a Intel precisava oferecer ferramentas para melhorar a maneira como seus associados trabalham e vivem. Neste ponto, as pesquisas eram essenciais para aperfeiçoar os recursos tecnológicos e torná-los mais avançados aos seus usuários. Fiquei tão interessada que inclusive convidei a secretária de educação para assistir as palestras da Intel. Mas após este momento, houve um vazio, pois a empresa começou a pesquisar apenas chips, e a contribuição em educação não aparecia. Agora está acontecendo o que eu buscava. Como sou psicóloga e trabalho há sessenta anos com educação, vivi muito com crianças com problemas de aprendizagem e dediquei minha vida a isso. Quando descobri a tecnologia, em 1980, naquela época pouco avançada ainda, eu integrava o desktop a redes de rádio amador para haver comunicação entre eles, pois precisavam se falar e ainda não tínhamos redes computacionais. A tecnologia tem um desenvolvimento muito acelerado, então o que surge, que poderia ser aplicado na educação, já é superado no próximo ano. É um fio de Ariadne. Como tudo é sistêmico, e com as facilidades da comunicação de hoje, as pesquisas se associam mais rapidamente e o conhecimento vai se multiplicando.
Vinicius: Então, neste caso, podemos fazer um paralelo entre o que Paulo Freire dizia, que as pessoas deveriam estar “com o mundo”, não ”no mundo”? Isso se aplica em relação à inovação constante da tecnologia na educação?
Dra. Léa Fagundes: Na verdade, “com o novo mundo”. Na minha geração, o novo mundo era América e Europa. Mas, agora, a civilização do planeta está em um novo mundo. Estamos despertando a consciência, não só ecológica, mas a consciência ética das pessoas. Acreditamos que os crimes e a falta de moral sempre existiram, mas não. As pessoas conviviam escondidas, pois não havia consciência de refletir sobre. Agora tudo vem à tona, pois a tecnologia da comunicação é maravilhosa. Estamos no novo mundo e as crianças que estão nascendo já vivem este novo mundo. Mas a educação não acompanhou esta evolução, é ainda a mesma do século XIX e a única área do conhecimento que resiste a mudanças. A concepção da educação era a de conservar e transmitir o passado.
Vinicius: Essa idéia está ligada a uma visão frágil de cultura, da transmissão do passado e dos valores…
Dra. Léa Fagundes: Isso mesmo. Mas não vivemos os valores do passado. Os valores estão na literatura, na filosofia, nos dogmas das religiões. Ninguém os vive e nunca os viveu. Na comunidade livre de desenvolvimento, não adianta falar em valores, é preciso praticá-los. E todas as tecnologias que vi, nos meus sessenta anos de trabalho, foram muito paliativas, não o que estávamos buscando. Não chegavam a mudar completamente o paradigma de modo que a educação pudesse incorporar e transformar, inovar mesmo. Então chega o laptop e pronto. Este era o meu sonho. Em 1990, conheci o Alan Key, do MIT, um pesquisador que inseriu o laptop em seu primeiro modelo pedagógico. Key continuou sempre trabalhando com o laptop, inclusive se aliou ao Papert no construcionismo. Mas a gente não tinha um sonho, pois o laptop se tornou um produto de consumo para a classe privilegiada, e as empresas queriam fazer equipamentos cada vez melhores para executivos que podiam pagar mais. Quando ele chegaria à mão da criança na escola? Então, quando surgiu o conceito de computação 1x1 nas escolas, ficamos empolgadíssimos. Era tudo aquilo que a gente sonhou! Como falei com a Rose (Salvini, da Intel), o Brasil é um continente e o Governo não consegue resolver tudo sozinho, tem que se aliar a todos os atores sociais. E as empresas são fundamentais para sustentar as pesquisas. Avaliar as transformações, corrigir os rumos e fazer um bom aproveitamento da tecnologia exigem muita pesquisa e não há governo que as sustente. Já as empresas, que estão com a mão na massa e sobrevivem pelo conhecimento do mercado, precisam investir em pesquisas para alcançarem o sucesso econômico. Eu vejo que a Intel já tem uma visão de pesquisa e fez um trabalho muito bom. O fato de a Intel estar alimentando a computação 1x1, fornecendo laptops para escolas, está dando uma “mão” fantástica. Por isso, eu disse à Rose que vou aproveitar meu restinho de vida (risos) para acompanhar as evoluções daquilo que me esforcei e vivi nesses anos, pensando se um dia aconteceria uma mudança na educação com a tecnologia.
Vinicius: Qual frase a Sra. usaria para resumir tudo o que está acontecendo neste Encontro?
Dra. Léa Fagundes: O ser humano não nasce, não sobrevive e não se desenvolve, a não ser por interação.
Vinicius: Poderia explicar?
Dra. Léa Fagundes: Porque a primeira interação é o oxigênio, a segunda é a alimentação, daí a luz no olhar e o som no ouvido. Tudo é interação, mas ela não era compreendida. O homem pensava que era ele contra a natureza. Então, agora que o homem descobriu que a tecnologia favorece seu desenvolvimento por interação, tudo passa a ser mais interativo. Bom, precisamos ser uma sociedade colaborativa e de cooperação, mas só vamos conseguir isso se for feita uma esfera de solidariedade, se fizermos trocas colaborativas. Vamos interagir um com o outro e um com o conhecimento do outro. E com esses produtos da Intel, então…
Vinicius: Como podemos exemplificar esta colaboração do conhecimento por meio da tecnologia?
Dra. Léa Fagundes: As comunidades de software livre são um exemplo claro disso. O fato de uma pessoa desenvolver um software e entregar para outras pessoas trabalharem, gratuitamente, é um avanço muito significativo de colaboração. Então, o desenvolvedor vê o seu software melhorado, com mais conhecimento integrado à sua criação. O resultado passa a ser coletivo, de conhecimento coletivo.


